13.1.06

A crítica literária e a atribuição de valor em literatura

“No meio literário português, a consagração inibe a crítica”, Pedro Mexia in Diário de Notícias

Decidi começar esta reflexão com esta afirmação de Pedro Mexia, que me parece ser um bom ponto de partida, para tratar do assunto em título.

Deste modo, quero começar por dizer que criticar por criticar, sem conhecimento de causa, é uma coisa extremamente fácil e simples de se fazer. Criticar algo negativa­mente, somente porque não se gosta da cara, do nome, ou do cabelo, ou porque o amigo do amigo é inimigo de alguém, ou criticar positivamente porque os olhos são bonitos, ou se gosta da cara, ou porque tem um carro topo de gama, ou porque o cunhado é irmão de alguém, sem se procurar saber mais sobre o assunto, sem se conseguir arranjar funda­mentos capazes, que justifiquem as opiniões, sem conseguir que o profis­sionalismo se sobrepo­nha à parcialidade, ou mais grave, porque, pura e simplesmente, se gosta ou não de alguém, ou existe algum interesse (oculto ou não), que vise abonar ou desvalorizar algo, ou porque a opinião sincera que se tem de alguma “coisa” não se possa revelar porque esta “coisa” já é reconhecida, e sabe-se o quanto é difícil “remar contra a maré”. Todas estas questões têm de ser muito bem compreendidas por parte de quem, por incumbên­cia, seja profissional da crítica, ou, melhor dito, queira ser um bom profissional da crítica. No entanto, “o bom amador” poderá ser o verdadeiro crítico, sendo que a este não se sabe quem lhe atribui as competências necessárias para julgar a criação de alguém, mas pode prever-se que o nível cultural tem aqui um papel decisivo. Jacinto do Prado Coelho assinala essa dificuldade em atribuir competências a alguém que vai julgar e avaliar o trabalho de outro, pois é muito complicado estabelecer-se que alguém tem essa “capacidade”, e que a seu julgamento é mais válido que qual­quer outro.

Os críticos literários têm, portanto, também eles, de conseguir ultrapassar certas “tentações” menos profissionais, a que todo o ser humano (e porque é precisamente Humano), se vê muitas vezes impelido a recorrer. Estes, para além de necessitarem ser “especialistas literários”, estar bem informados e actualizados, e de deverem ser possui­dores de um espírito “anti-lob­bie”, com o qual evitem ser parciais, e menos verdadeiros, têm de ser precisamente, profissionais, em todo o significado da palavra, isto é, conse­guirem estar completa­mente neutros face às vastíssimas obras, de variadíssimos autores, que têm por missão julgar, e assim contribuir com a sua opinião especializada e credi­tada, logo séria, para uma apreciação consistente, íntegra e “pura” de todas as obras que lhes cabe “avaliar”.

O artigo do Diário de Notícias, escrito por Pedro Mexia, intitulado Excesso de Con­sagrados, demonstra de uma forma muito peculiar, como são tratados os escritores mais desconhecidos, face aos consagrados, evidenciando a falta de atenção, por parte da crí­tica, que os primeiros têm em relação aos segundos. Este aparente “favorecimento” dos autores “canonizados” deve-se a factores como os que referi anteriormente, e expressa como é difícil ir contra a opinião já formada, pela maioria dos responsáveis, acerca de determinados escritores, e como as próprias editoras já se encontram separadas por padrões de qualidade, em que os críticos se baseiam para dirigir a sua atenção, sem se importarem com o que realmente interessa, a qualidade da obra em si.

Neste artigo, ainda existe uma passagem muito interessante, em que o autor refere uma questão que o romancista que o contactou levantou, sobre se os críticos se não sou­bessem quem eram os autores dos livros, logo, sem influências de nenhuma ordem, teriam a mesma opinião, ou não, sobre os mesmos. Neste caso, Pedro Mexia alegou que um bom e um mau texto são facilmente diferenciáveis, dada a sua experiência como júri de textos originais, mas conclui que o “problema não está nos grandes talentos esqueci­dos mas nos medianos talentos empolados”, querendo com isto dizer que existem de facto muitos escritores distinguidos pela crítica, que não o deveriam ser, pois as suas obras não têm toda a qualidade que lhe reconhecem, e outros que mereceriam essa dis­tinção, e por algum motivo menos claro são desprezados.

No seguimento disto, terei de fazer referência ao post publicado no blog Esplanar, intitulado “Couves e Alforrecas”, da responsabilidade de João Pedro George, em que este mostra o produto de uma análise exaustiva da obra de Margarida Rebelo Pinto. O autor é impiedoso na crítica que faz, demonstrando a “fórmula” utilizada pela escritora na redacção dos seus livros. O “desmascaramento” do êxito da escritora mais lida em Portugal, é feito de uma forma inquietante, pois João Pedro George descobre frases repetidas, e até mesmo parágrafos inteiros repetidos nos vários livros da autora, e consi­dera que esta possuiu uma enorme falta de originalidade, porque os temas são sempre os mesmos, e a escrita é de uma “simplicidade con­frangedora”. Bem, convém aqui per­guntar que legitimidade (“quem lhe outorga diploma de competência?”) tem João Pedro George para desfazer desta forma, a qualidade de uma escritora com a quantidade de livros vendidos que tem a Margarida Rebelo Pinto. A resposta pode encontrar-se exac­tamente nas questões referenciadas anteriormente, pois nem sempre o que é bom, o que tem valor é suficientemente divulgado, e é muitas vezes deixado para trás por parte da crítica, e o que é menos bom, ou mau, tem um conjunto de “holofotes” dirigidos a si, por motivos desconhecidos e algo obscuros, que lhe fornecem uma projecção imerecida. A questão de onde vem a competência para se fazer esses julgamentos vem de novo ao de cima, e ao verificarmos toda a polémica criada por este post de João Pedro George, onde se podem encontrar reacções pró e contra, espalhadas um pouco por toda a blogosfera, através de publicações noutros blogs, e até mesmo num jornal de tiragem nacional, como é o caso do 24 Horas.

Quanto à votação que se está a fazer no blog Livro Aberto (blog do programa da RTPN com o mesmo nome), para a eleição dos melhores livros de 2005, é um “julga­mento” que está aberto a toda a gente, com maior ou menor especialização, depende então da subjectividade de cada um, do gosto de cada um, e portanto, podem surgir resultados muito diversificados, no entanto, penso que as avaliações serão sempre influenciadas pelas posições dos críticos (que até mesmo no blog têm espaço para mani­festar as suas preferências), sendo que o valor atribuído desta forma torna-se um tanto ou quanto questionável. A opinião do público é importante, mas não é soberana no que concerne à atribuição de valor literário, pois nem tudo o que mais vende, logo o que é mais lido, como é o caso de Margarida Rebelo Pinto, tem o valor literário correspondente, ou seja, a quantidade de vendas está longe de corresponder à respectiva qualidade literária.

Para concluir, penso que se todas as pessoas ligadas ao meio literário fizessem um esforço, desde críticos, aos responsáveis pelas editoras, até mesmo os próprios escritores, de modo a evitar que existam motivos menos claros, que determinem a sobrevalorização de uns e o desconsideração de outros autores, todo o trabalho de crítica e atribuição de valor se iria revelar mais eficaz, fazendo com que a literatura fosse a grande beneficiada com esse desenlace.

Blogosfera literária

Numa viagem pelo ciberespaço é cada vez mais comum “entrarmos” num dos imen­sos blogs, que já são uma parte bastante assinalável do Mundo Electrónico que constitui a Internet. No fundo, os blogs não são mais do que sites (sítios), que se dedicam aos mais variados assuntos e temas, cuja publicação online é facilitada, pois toda a estrutura se encontra pré-configurada, sendo “apenas” necessário arranjar-lhe o conteúdo, com­provando-se que esta aparentemente simples tarefa pode tornar-se, de facto, bastante árdua, de modo a possibilitar que os conteúdos possuam a qualidade “necessária”, que valide a sua publicação. No que respeita a blogs que versam sobre Literatura, esta reali­dade não é diferente, pois numa pesquisa ciberespacial encontramos muitíssimos sítios que se debruçam sobre esta temática e abordam-na das mais variadas formas.

Muitos desses blogs, onde existem referências a Literatura, não se dedicam exclusi­vamente a esta temática, já que podemos encontrar posts sobre assuntos tão variados, como política ou futebol, misturados com crónicas diárias, críticas literárias, ou excertos de textos literários, entrecruzados com pensamentos dos próprios autores dos blogs.

Da pesquisa que efectuei, passei por muitos desses blogs, de entre os quais elegi os dois seguintes para fazer a sua descrição e análise crítica:

* http://esplanar.blogspot.com/ ;

* http://baudaspalavras.blogspot.com/ .

O blog Esplanar, da autoria de João Pedro George, escritor de O Meio Literário Portu­guês, é um sítio onde podemos encontrar informação sobre literatura, actualizada permanen­temente. Aqui, para além das inúmeras citações de textos dos mais variados escritores, de alguns comentários e pensamentos do autor do blog, da entrevista com o escritor Luiz Pacheco, até ao teste Você também pode ser escritor? deparamo-nos com grandes e exaustivas análises críticas a algumas obras, como Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica e Equador de Miguel Sousa Tavares, e á análise, pouco abo­natória, da obra completa de Margarida Rebelo Pinto. Este ensaio crítico acerca da obra desta escritora, fez com que fosse capa do jornal diário 24 Horas, e criou imensa polé­mica no meio literário nacional, pois o autor do blog concluiu após uma leitura dos vários livros de Margarida Rebelo Pinto, que a sua escrita é de uma “simplicidade con­frangedora”, que os temas são sempre os mesmos, e apresenta inúmeros exemplos de frases inteiras, ou mesmo de parágrafos inteiros que a escritora repete nos vários livros que constituem a sua obra.

Numa navegação no arquivo do blog podemos verificar que o espírito crítico de João Pedro George, tal como de outros autores, nas publicações iniciais do sítio, faz com que a sua leitura seja bastante interessante e que tenha alguma importância para a compreen­são de algumas das “problemáticas” da Literatura.

A disposição do discurso e a adequação deste ao que se passa na actualidade foram factores que me levaram a escolher este blog, para a elaboração deste trabalho.

O Baú das Palavras é um blog mantido por Alexandra Fernandes, que utiliza o pseudó­nimo Calisto para assinar os seus escritos. A autora, uma anónima que é respon­sável por este sítio bastante atraente, não tanto do ponto de vista visual, pois o negro da página não condiz bem com este conceito (porém, tudo depende da subjectividade de cada um), mas pelo recurso a excertos de textos de diversos autores, bem enquadrados no tempo, do meu ponto de vista, pois a autora recorre a fragmentos de textos de escri­tores ou autores, que por algum motivo estão na ordem do dia. Exemplo disso é o último post, datado de 23 de Novembro, referente ao novo romance de José Saramago, As Intermitências da Morte, obra lançada na segunda semana do mês em que nos encontramos.

Para além disso, numa exploração mais profunda, podem encontrar-se excertos de textos que vão de Fernando Pessoa, e de alguns dos seus heterónimos, a Manuel Alegre, passando por Ary dos Santos, e Herberto Hélder, a alguns textos da autoria da própria criadora do blog, possuindo ainda fragmentos de letras de canções de alguns artistas do panorama musical nacional, como Toranja e Zeca Afonso, e internacional, como Nick Cave. Contudo, este não contém a componente crítica que o Esplanar empreende, pois os textos produzidos pela autora deste sítio são estritamente literários, o que, na minha óptica, constitui uma desvantagem para com o primeiro, pois acho muito importante a análise crítica proferida pelos autores dos blogs que querem fazer parte da Blogosfera literária, acerca das obras que vão sendo publicadas, e acerca dos diferentes escritores que as vão publicando. Por outro lado, o Baú das Palavras passa algum tempo sem ser actualizado (pode verificar-se que antes da publicação do último post no dia 23 de Novembro, o anterior tinha sido publicado a 25 de Agosto), o que o leva a deixar para trás alguns acontecimentos, que certamente mereceriam publicação neste sítio.

Pode então afirmar-se que os dois blogs são distintos, pois o primeiro, para além de contar com muitos excertos, dos mais variados autores, e alguns textos da autoria do próprio criador do sítio, adopta também uma componente de análise crítica, perante os vários títulos que vão sendo publicados, e sobre a obra de determinados escritores, sendo que no segundo isso não se verifica. Por outro lado, o Esplanar é actualizado quase diariamente, e o Baú das Palavras leva algum tempo sem que se publique qual­quer post.

Todas as diferenças que se possam encontrar entre estes dois, e entre qualquer outros blogs que tratem de Literatura, que possam “ferir” alguns e “abonar” outros, não se podem sobrevalorizar à grande questão que está subjacente à origem de todos eles, que é, a criação no ciberespaço, de sítios de emissão, discussão e partilha de opiniões sobre o tema que os une, a Literatura.

Pesquisa: Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares é um jovem escritor, nascido em Angola, em 1970, que apesar da sua pouca idade, 35 anos, tem já cerca de uma dezena de livros publicados e foi tam­bém já vencedor de alguns Prémios Literários importantes.

Gonçalo M. Tavares é professor de Epistemologia da Motricidade Humana, na Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa, e enquanto escritor, mostra-se um autor multifacetado, pois a sua escrita não se resume a um único tipo de texto, ele deambula por entre a poesia, o romance e outros géneros literá­rios.

A sua bibliografia é portanto, um reflexo desta sua característica multiforme, onde pode­mos encon­trar livros de poesia, romances ou livros de contos e outros textos que já foram adaptados para teatro.

António Manuel Ferreira, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Aveiro, fez a caracterização da sua obra, através de um artigo denominado «Breve aponta­mento sobre a poesia de Gonçalo M. Tavares», publicado no Diário de Aveiro, a 3 de Junho de 2003 e mantido on-line, no seguinte endereço electrónico: http://www.dlc.ua.pt/classicos/Gtavares.pdf.

Neste site pode constatar-se que a informação acerca do escritor no que à sua biblio­grafia diz respeito, se encontra incompleta, pois o artigo foi publicado em 2003 e Gon­çalo M. Tavares já publicou mais alguns livros entretanto. Contudo, o artigo faz refe­rência e descreve todas as obras publicadas pelo escritor, até àquela data, estando assim de acordo, com a bibliografia apresentada na Porbase. Para além disso, o professor Antó­nio Manuel Ferreira, faz alusão aos Prémios Literários ganhos pelo escritor, se bem que ainda não refira o Prémio José Saramago, pois esse só veio a ser conquistado em 2005. O artigo conta com a opinião especializada deste professor de Literatura portu­guesa, que analisa a escrita do autor, e contem alguns comentários de críticos literários, acerca da sua obra e também um pequeno excerto de um dos seus livros, O Homem ou é Tonto ou é Mulher.

No site Nova Cultura, existe alguma informação sobre a obra de Gonçalo M. Tava­res, no entanto, esta não é tão exaustiva nem especializada como a visualizada no site anteriormente citado. Encontram-se aqui referências de alguns dos livros do escritor, não tendo contudo, a sua bibliografia completa. Para além disso, é omissa no que con­cerne aos Prémios Literários conquistados pelo escritor, fazendo alusão a apenas dois deles. Neste endereço ainda se pode encontrar a crítica ao romance Um Homem: Klaus Klump, realizada por Belém Barbosa.

No site da Editorial Caminho, encontra-se uma breve biografia do escritor, tal como a sua bibliografia, embora esta não corresponda àquela encontrada na Porbase, pois faz referência a livros que o site da Biblioteca Nacional não inclui. Neste endereço ainda temos acesso às críticas literárias, dos vários livros publicados pelo escritor nesta edi­tora, algumas ligações a notícias sobre alguns desses livros, lançadas na imprensa e alguns pequenos excertos dessas obras. Temos ainda informações a respeito dos vários Prémios Literários atribuídos ao autor e referências a algumas antologias de poesia, publicadas em vários países, onde Gonçalo M. Tavares se encontra representado.

O site do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas disponibiliza uma informa­ção mais completa, no que concerne à bibliografia do escritor, e aqui, tal como no site da Editorial Caminho, também se acrescentam alguns títulos àqueles que são referidos na Porbase. Para além de ter informações relativas à biografia, aos Prémios Literários e algumas informações complementares publicadas na imprensa, também inclui ligações a vários endereços que disponibilizam notícias sobre o escritor, entrevistas com o mesmo e possui excertos de alguns dos seus livros.

Todos os endereços electrónicos mencionados têm informações coincidentes sobre o escritor Gonçalo M. Tavares, no entanto, uns têm dados mais completos e actualizados que outros, como é o caso do site da Editorial Caminho e do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, contudo, as informações que o artigo de António Manuel Fer­reira disponibiliza em www.dlc.ua.pt/classicos/Gtavares.pdf, podem ajudar a compreen­der melhor quem é o autor e como é a sua escrita.

Página de um Diário Íntimo

Hoje, Sexta-feira, faz três dias que não durmo! A infinidade das horas dos dias torna-os ainda maiores, e o cansaço que me invade o corpo faz com que a lucidez seja uma reali­dade ausente, distante, tornando-me completamente incapaz de fazer o que quer que seja. No entanto, aqui estou a tentar transmitir aquilo que procuro, de acordo com os sentimentos, que se encontram aparentemente inactivos. Dificilmente o vou conseguir.

O vento forte lá fora torna toda esta composição ainda mais nublada, com todos os sons misturados, de «coisas» a bater noutras «coisas» ou nelas próprias. A chuva ainda não apareceu, mas em concordância com toda esta escuridão, não deve tardar por aí.

A beleza, única, de um dia sombrio e melancólico como este faz com que o corpo des­nudado da minha companheira, paralisado no silêncio profundo da nossa cama, pareça emergir de um abismo, onde eu anseio e necessito mergulhar.

Da janela avisto as pessoas, que iniciam mais um dia, nas suas apressadas caminhadas, para direcções diversas e indeterminadas, se bem que o destino pessoal de cada uma delas seja o mesmo. O trabalho. Eu, porém, ainda não estou preparado para iniciar essa aventura, por entre todas estas criaturas, carros e árvores (que hoje exibem o seu pecu­liar bailado ao som e sabor do vento), que entram nesta agitação matinal, e que sem se aperceberem, fazem parte desta magnífica dança, não coreografada. Eu apenas desfruto da sua sublime visão, do alto do quinto andar do prédio onde resido. Será o meu traba­lho escrever sobre isto? Sobre esta actuação que as pessoas me proporcionam e que nem fazem ideia da estarem a orquestrar. Não acho que seja este o propósito da minha existência, mas neste momento não tenho qualquer outra ocupação senão esta. No entanto, convém explicar que as minhas pretensões a escritor são nulas.

Há bocado, quando resolvi terminar com a extrema inquietação de estar deitado sem dormir, dei por mim, depois de ter lavado o rosto esgotado e ressacado, a olhar o espe­lho. Sempre pensei que a separação do corpo e da alma, só aconteceria na hora da morte. Mas não!?! Eu consegui ver, pelo espelho, a minha alma a vaguear pela casa de banho, como que a pedir que a soltassem. Não sei bem se adormeci por instantes e se tratou de um sonho instantâneo, ou se aquilo realmente aconteceu, o que é certo é que subitamente fechei os olhos e quando voltei a abri-los, tudo estava normal, como se nada se tivesse passado. Estranhamente, este acontecimento não me conseguiu tirar o sono, que a cada minuto me dominava mais o corpo, não deixando que a lucidez se apoderasse de mim.

Apesar do estado miserável em que me encontro, pois não consigo pensar em nada, tenho uma imensidão de «coisas» no horizonte.

Vamos lá ver se vou conseguir realizar tudo aquilo que ambiciono…

-“Acorda, meu amor!” – pronunciou a minha mulher, com a voz enrouquecida própria de quem acabou de acordar.

Depois de ter ficado chocado com o facto de tudo não passar de um sonho, lá comecei mais um dia normal, cheio de energia para iniciar a caminhada através das pessoas, dos carros e das árvores (cujos ramos encobrem os fortes raios solares), rumo ao nosso des­tino comum e participar, também e involuntariamente, na dança da realidade quotidiana.

Os livros da minha vida

Para falar dos livros da minha vida, tenho de recuar até à minha infância e fazer uma viagem, desde essa altura até aos dias que correm, através das páginas dos livros que li, e relatar os sentimentos que estes me despertaram, nos vários períodos em que foram surgindo. Convém referir que nunca fui um leitor muito assíduo, contudo, os livros sempre se foram cruzando comigo, quase que naturalmente, sem que eu, muitas vezes, fizesse algo para isso acontecer.

Apesar de não ser, nem pretender ser um grande conhecedor de literatura, todas as passagens que esta teve na minha vida, sempre deixou as suas marcas, e ainda hoje fico com a sensação de que poderia ter assumido um papel mais importante do que aquele que vem assumindo, pois sempre que estivemos mais próximos, demo-nos sempre bem.

Penso que todos estes aspectos fizeram com que não tenha um único livro de eleição, mas vários, ou seja, quase todos aqueles que tive a sorte de ler.

Falando concretamente nos livros que eu considero os da minha vida, tenho de começar por referir uma colecção, que os meus pais tiveram a felicidade de me oferecer, ainda eu não sabia ler. As Histórias do Avozinho, uma compilação de contos da autoria de Raul Correia e publicada pela editora Amigos do Livro.

Os oito livros que compõem esta colecção contêm várias histórias, que ainda hoje recordo e que me fazem regressar ao passado, tal como a “História de um homem ambicioso”, que sempre foi a minha preferida, não sei se pelo facto do pescador ter apanhado um peixe que falava, se pela enorme persistência com que Pedro, o pescador, procurava a fortuna, que tanto ambi­cionava e que o peixe dourado prometeu que ele iria encontrar, caso este o devolvesse ao mar.

Mais tarde, e muito motivado por um amigo meu, que devorava a colecção Uma Aventura …, resolvi eu também aventurar-me pelas suas páginas. De entre estes livros da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e editados pela Caminho, não gos­taria de destacar nenhum. Apenas quero dizer que os que consegui ler (pois não li a colecção toda) fizeram com que desejasse estar na pele daqueles cinco jovens

aventureiros, o Chico, o João, o Pedro e as Gémeas, Teresa e Luísa, que estavam sempre a viajar e a entrar em novas peripécias, o que me deixava louco de inveja.

Posteriormente, e por obrigações escolares, tive a oportunidade de conhecer diversas obras de autores portugueses, entre as quais a do Grande Fernando Pessoa, que considero autor da mais monumental obra poética alguma vez feita em língua portu­guesa. A sua capacidade criativa, aliada às características heteronómicas, permitiram que fosse um dos grandes inovadores da poesia universal. De toda a sua obra, gostaria de destacar Mensagem, seu único livro editado, em que ele versa a respeito da história de Portugal e do povo português, e que continua actual, visto que, a Terceira Parte, intitulada O Encoberto, faz referência a um “Portugal a entristecer” em que “Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso e nada é inteiro”, que podemos verificar que é ainda a realidade do nosso país. Este é, sem dúvida, um dos mais fabulosos e importantes livros que li, e dos que mais me dizem, pois revejo a nobreza dos nossos antepassados na ascensão do nosso império, e a “Tormenta” e o “Nevoeiro” em que ele se tornou, depois de tão grandes conquistas.

Para além das obras já referidas, mais contemporaneamente, dediquei-me à lei­tura da trilogia do Senhores dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, editados pelas Publicações Europa-América. Esta trilogia, levou-me a viajar à Terra Média e ao maravilhoso uni­verso criado por Tolkien, onde Homens, Hobbits, Elfos, Anões e uma série de feiticeiros coabitam, na tentativa de salvar o mundo, do mal que tem em Sauron o seu expoente máximo. A narrativa de Tolkien fez-me entrar por aquele universo e deambular por todos os seus cantinhos. É definitivamente uma obra pela qual tenho um grande apreço, e tinha de fazer parte da lista dos livros da minha vida.

Actualmente, tenho-me dedicado à leitura de outro tipo de obras de ficção, como O Código Da Vinci ou Anjos e Demónios, da autoria de Dan Brown, publicados pela Bertrand, que me têm surpreendido, pelo seu esoterismo, pela intriga, pelo suspense e pela forma inteligente como o autor cria todo o enredo. Todo este universo ficcional que o autor nos mostra, desvendando alguns supostos mistérios, e entrando pelos caminhos de teoria da conspiração, faz com que seja um dos mais polémicos e também mais vendidos escritores da actualidade, pelo qual tenho profunda admiração.

São estes, portanto, os livros da minha vida, embora eu saiba e espere que a lista possa aumentar, mas, seguramente, todas as obras que referi aqui fazem parte do meu ser e estarão para sempre na minha memória.

Os dias da Literatura Portuguesa

A Literatura Portuguesa Contemporânea está em contínuo enriquecimento, isso é notório e visível nos vários lançamentos de livros que acontecem semanalmente, por parte dos escritores de língua portuguesa, que não contando, infelizmente, com a mesma projecção mediática, que J. K. Rowling e o seu novo Harry Potter e o Príncipe Miste­rioso granjearam no dia do lançamento da tradução portuguesa do sexto livro desta saga, continuam a colocar no papel a originalidade e criatividade, próprias da vivência e cultura do nosso povo, que fazem com que a literatura portuguesa, referindo as palavras do director do Jornal do Fundão, Fernando Paulouro, responsável pela apresentação do novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho A Casa Quieta, na Biblioteca Municipal da Covilhã (numa cerimónia bem mais discreta da que ocorreu nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa), coloque “o país na disputa dos melhores lugares a nível europeu” no que concerne a obras literárias.

No que diz respeito a novos trabalhos de autores portugueses, o segundo romance do jornalista e escritor, Rodrigo Guedes de Carvalho, publicado pelas Edições Dom Qui­xote, foi alvo de apreciação na edição de Sábado, no suplementoActual” do Expresso, por parte da escritora e crítica literária Dóris Graça Dias, que refere que o texto, de iní­cio consegue prender a atenção “e a vontade de ler”, mas esfria com o decorrer da nar­rativa, tornando-se, através da sua “complexidade formal” muito repetitiva e espaço de “lugares-comuns”. No entanto, a presença da ironia é destacada pela crítica, que afirma que “muita ficção nacional peca” por não ter presente esta propriedade, que segundo a opinião de Dóris Graça Dias é necessária na literatura.

Mas não foi este o único lançamento por parte de um jornalista/escritor, já que Pedro Chagas Freitas lançou o seu primeiro romance intitulado Mata-me, com o selo da Corpos Editora. A apresentação pública da obra decorreu no Cybercentro de Guima­rães e contou com a presença do escritor e crítico literário Fer­nando Venâncio, encarregue da apresentação do livro. Este foi ainda responsável pela análise crítica, que saiu, também, na edição de Sábado no suplemento “Actual” do Expresso, onde foi referenciado pelo mesmo, como um livro “breve mas duro”, com que este jovem de 25 anos entrou “de repelão” no contexto literário português. Sobre o livro, o crítico do jornal Expresso argumenta ainda que se trata “de uma obra com uma escrita densa e fluente e uma linguagem tremendamente comunicativa”, e menciona Raul Brandão e José Luís Peixoto como “espíritos irmãos” do autor, no que toca ao género da narrativa, estilo que este afirma desconhecer.

Outro lançamento, este registado no suplemento “Mil Folhas” do Público de Sábado foi o livro de ficção de Sérgio Sousa-Rodrigues intitulado O Alfarrabista Que Mandou Falsificar Os Lusíadas, editado com a chancela da Prefácio. É referenciado como “um romance ou novela” repleta “de intrigas, mistérios, equívocos, sátiras e paródias” protagonizadas por um alfarrabista, que eleva o seu amor pelos livros ao extremo.

Para além destes lançamentos, há a registar ainda uma notícia do Diário de Notícias, acerca da atribuição do Prémio Máxima ao romance Uma Pedra no Sapato de Luísa Beltrão, editado pela Oficina do Livro. Este galardão visa reconhecer e “divulgar” obras literárias de escritoras portuguesas, sendo que esta autora já havia sido distinguida com este prémio, em 1994, pelo romance Os Pioneiros, publicado pela Editorial Presença.

No que concerne a prémios literários, convém ainda destacar o vencedor do Prémio José Saramago de 2005, Gonçalo M. Tavares com o romance Jerusalém, publicado pela Editorial Caminho. Este prémio bienal visa distinguir jovens escritores de língua portuguesa. A sua atribuição é classificada pelo autor, não como um incentivo, porque este afirma que não escreve livros para ganhar prémios, mas sim como um reconhecimento pelo seu trabalho. A cerimónia contou com a presença de José Saramago, que destacou a inteligência do vencedor deste ano do prémio com o seu nome, que foi instituído para celebrar a sua distinção com o Prémio Nobel da Literatura.

E assim se fazem os dias da Literatura Portuguesa Contemporânea, porque as palavras e ideias que os escritores portugueses nos vão deixando, nas suas grandiosas obras são, de facto, motivo de orgulho para todos nós portugueses, que num país em que pouco ou nada são rosas, podemos dizer que possuímos um património literário digno de registo e com qualidade reconhecida internacionalmente.

Preâmbulo

Este blog tem uma função complementar de Literatura Portuguesa em notícia. Nele serão publicados os melhores textos produzidos pelos alunos ao longo do semestre, de Outubro de 2005 a Janeiro de 2006.